quinta-feira, 26 de maio de 2016

ASILO de S. JOSÉ, UMA INSTITUIÇÃO de REFERÊNCIA


“…dar a conhecer a história deste Asilo e da memória e impagável doação que a ele fazem os que lhe dedicam a sua vida-é uma forma de o tornar ainda mais apreciado e respeitado pela nobre acção sócio - caritativa que vem desenvolvendo há mais de século e meio. Além de que tal conhecimento histórico permitirá (disso estamos certos) perspectivar o Futuro com renovada Esperança – virtude muito necessária a este Presente tão sombrio por que passamos, nomeadamente se chamarmos à colação o aumento progressivo e exponencial de pobres em desamparo, de doentes sem conforto e de idosos abandonados (aumento esse que aponta para números assustadores num futuro próximo…)” - Extracto do prefácio assinado pelo Dr. Abílio Peixoto no livro “Do Convento das Teresinhas ao Asilo de S. José”, da autoria do prof. Carlos Jaca, a convite da actual Direcção, no 160º aniversário da fundação do Asilo de S. José, em 1850.

Neste singelo trabalho, para além da justa referência à citada publicação, cuja leitura vivamente aconselhamos, uma vez mais se pretende sublinhar a grande importância desta excelente Instituição social que, não obstante as frequentes vicissitudes e condicionalismos de ordem económico/financeira, persiste em condignamente honrar os nobres objectivos para que foi criada. Abster-nos-emos, pois, e como é óbvio, da sua abordagem histórica, aliás muito bem sintetizada por Carlos Jaca em notável trabalho de investigação, que justamente assinalamos, com breves e ocasionais referências, para uma melhor contextualização do presente texto.




CONTEXTUALIZAÇÃO


- Originário do Recolhimento de S. Domingos, com “passagem” pelo Recolhimento de Santa Teresa, ou Teresinha, em 1742, mais tarde elevado a Convento, em 1778, e com as necessárias obras de recuperação, o actual Asilo de S. José, de fachada austera, distribui-se por três corpos de edificado.

As suas raízes têm origem no Asilo de Entrevados e Inválidos de Braga, em meados do século XIX. Com efeito, foi por “alvará do governador civil de então, o Conde de Vila Pouca, criada a Comissão de Melhoramentos que funcionava, simultaneamente, como Comissão Instaladora”, cuja presidência desde logo foi assumida por Fernando de Oliveira Guimarães, ilustre Cavaleiro da Ordem de Cristo. De início, instalou-se numas casas particulares do fundador, na antiga Rua da Água (actual Avenida da Liberdade); mais tarde, para o já referido Convento das Teresinhas, na rua de S. Barnabé, e só em 1904 no actual edifício. Entretanto, e ao longo dos anos, foram prosseguindo as obras de restauro e ampliação, de modo a torná-lo mais confortável e funcional, como aconteceu nos princípios da década de 70 do século XX, sob os auspícios da direcção presidida pelo advogado Dr. Jaime Lemos.

- Anexa à estrutura do Asilo e naturalmente constituindo parte integrante do seu vasto complexo, podemos admirar a IGREJA das TERESINHAS que, tal como acontecia com as igrejas conventuais femininas, não apresenta fachada. A entrada é lateral, devido ao facto das monjas recolhidas no convento não terem acesso pelo exterior – apenas contactavam com o público no interior, já quando as portas se encontravam cerradas e, mesmo assim, através de grades. No seu interior destacam-se, entre outros: o Retábulo, (finais do século XIX), o Sacrário (século XX), o Púlpito e dois Altares laterais (1775/1780). O Órgão, instalado no Coro Alto, (dali se pode fazer uma “leitura” global da Igreja), data do século XIX. Interessante, igualmente, a original pintura numa tela fixa no tecto e onde aparece destacada a figura de Santa Teresinha. O estilo predominante é o período final do Rococó. No Coro Lateral, já bem próximo do Altar-Mor, podemos ver umas grades por onde as irmãs, ou outras intervenientes para o efeito autorizadas, apresentavam ao celebrante tudo o que fosse necessário para as actividades do culto sagrado. Na Sacristia, para além de um belíssimo arcaz, deparamos, ainda, com uma artística fonte da segunda metade do século XVIII.








Imagens do altar, panorâmica geral, coro alto e tecto da Igreja das Teresinhas.





ESPAÇOS INTERIORES

Foi na muito simpática e prestável companhia do Sr. Albino Gago, membro da actual Direcção do Asilo de S. José, que tivemos a grata oportunidade de visitar, demorada e pormenorizadamente, as actuais instalações da Instituição. À entrada, do lado esquerdo, deparamos com um interessante espaço museológico, onde podemos admirar artefactos de vários tipos e épocas, tais como: antigos retratos/pinturas de personalidades ligadas ao Asilo, nomeadamente dirigentes, colaboradores e benfeitores – espalhados, aliás, por outras áreas do edifício - alguns livros de actas, o primeiro dos quais datado de 1861 e outro espólio variado que, embora não contabilizando “peças de 1ª”, não deixa de fazer parte, obviamente, da memória colectiva da Instituição.


Um aspecto do Espaço museológico.


Ainda à entrada e defronte, surge-nos o busto do fundador, Comendador Fernando de Oliveira Guimarães para, logo acima das escadas, que dão acesso a um amplo espaço ajardinado, pontificarem o busto do advogado bracarense Jaime Lemos, ilustre membro de anteriores direcções e grande impulsionador/benemérito da Instituição, bem como a figura da irmã Maria Clara do Menino Jesus, fundadora da Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição.



Bustos do fundador, Comendador Fernandode Oliveira Guimarães e do Dr.Jaime Lemos, ilustres figuras da história do Asilo de S.José.





- Seguem-se os pisos das duas alas de aposentos/camaratas das senhoras – lado esquerdo; dos homens – lado direito. Para além de funcionais, continuam a ser objecto de frequentes recuperações, quer no seu interior, quer nos corredores de acesso, com as janelas bem arejadas e os estores automatizados. 



Quadro com pormenor de uma das primitivas camaratas e aspecto de uma camarata actual.



Em cada piso, há sempre uma copa de assistência, com especial relevância para a copa dos acamados, mais completa e de características algo diferentes, incluindo vias de acesso para cadeiras de rodas.

- Existem, ainda, no 2º piso, salas de fisioterapia e gabinete de apoio a cuidados médicos e de enfermagem equipados com os recursos necessários para dar resposta às necessidades dos utentes, bem como uma sala de estar para os menos capazes (excepto acamados), com dois aparelhos de TV, em ângulos opostos, para um melhor conforto e descanso dos utentes.




Gabinete médico e de enfermagem.



- Mais abaixo, agora já no 1º piso, encontramos um grande salão de festas, separado por uma pequena sala de estar, de um outro espaço menos amplo para palestras e conferências. Os vários corredores são espaçosos, com boa luz e propícios ao lazer.

- A cozinha, devidamente apetrechada, o refeitório e a lavandaria são outras dependências da maior relevância tendo em conta, sobretudo, o exigente serviço diário prestado a quase centena e meia de residentes.



Pormenores da Cozinha e do Refeitório



- A energia e o aquecimento do Asilo resultam, em grande parte, dos painéis solares e fotovoltaicos instalados na estrutura superior do edifício.



LOGRADOURO / ESPAÇO EXTERIOR 

O exterior do Asilo de São José contempla uma grande área de logradouro, com vastos espaços de jardinagem, área de cultivo e até de repouso para os utentes que deles mais e melhor possam usufruir; tudo, aliás, muito bem enquadrado na morfologia do terreno, “sempre a subir” e, por isso mesmo, verdadeiramente propiciadora de magnífica vista panorâmica!







ACTIVIDADES

- São inúmeras as actividades religiosas e lúdico/culturais levadas a cabo naquela prestimosa Instituição como acontece, por exemplo, com o projecto “Leituras com vida dão alma às freguesias”/biblioterapia para idosos.

A leitura como terapia, designada por Biblioterapia, representa uma interação entre leitor, texto e ouvinte. Além de trazer qualidade de vida para muitos idosos, a Biblioterapia é relevante em inúmeras situações, como, por exemplo, ao tratar de temas ligados à inclusão social ou socioeconómicos, aliviar as tensões diárias, diminuir o stress, auxiliar na compreensão de sentimentos de frustação, medos, morte de pessoas queridas, separações e situações de abandono afetivo e material.

Assim sendo, a biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em parceria com o Pelouro da Cultura do Município de Braga e Juntas de Freguesia aderentes, lançou e iniciou em abril de 2012 o projeto de Biblioterapia para idosos intitulado "Leituras com vida: dão alma às juntas de freguesia de Braga”. Este projeto foi orientado preferencialmente para a população sénior da Junta de Freguesia não institucionalizada que, por motivos vários, se encontram mais socialmente excluídos e distanciados de iniciativas ligadas à promoção da leitura, da escrita, articuladas com atividades plásticas. 

Realiza-se uma vez por mês com sessões de atividades de animação lúdica, baseadas nas leituras de livros, jornais, revistas, filmes, música e jogos, deste modo criando incentivos para se reconhecerem mais vivos e despertos para a vida, sentindo-se mais úteis, ensinando-os a socializar, recrear, formar, informar, educar a atenção, enriquecer a linguagem, estimular a imaginação e a inteligência, despertar e apaziguar emoções e sentimentos, desenvolver o sentimento de compreensão e a simpatia humana, bem como despertar neles uma visão estética e artístico-literário.

O Asilo de S. José, pela Junta de freguesia de S. Vicente foi o local escolhido para que estas sessões se realizassem uma vez por mês para os seus residentes seniores”.



Celeste Magro e Conceição Marques, as duas técnicas da biblioteca que o dinamizam, referem a propósito:

“É com enorme prazer que podemos dizer que mensalmente e já há quatro anos, trazemos ao Azilo de S. José leituras, histórias e sorrisos, despertamos memórias e emoções… fazemo-lo de coração e com o coração para que se passem bons momentos de prazer e convívio sempre aliados à tradição oral.

Agradecemos todo o carinho com que sempre somos recebidas no Azilo de S. José, quer por todo o seu pessoal, quer pelos “nossos jovens” que têm sempre um sorriso e uma bela palavra para nós.

Agradecemos também à Junta de Freguesia de S. Vicente na pessoa do Dr. Domingos Alves, todo o carinho que demonstra por estes residentes e que tão bem nos acolhe.

Esta é uma história que ainda não tem fim… Motivação e dedicação caminham a nosso lado. Sem elas, qualquer trabalho é apenas temporário, porque não há o que as faça durar… o bom trabalho é aquele que, em alguma medida, nos realiza, nos dá satisfação e nos faz sentir utéis para a sociedade em que vivemos; enfim, um trabalho cujo sentido conseguimos perceber. Continuaremos até quando nos quiserem… com muita alegria, muitas histórias e muita animação. Esta é a nossa promessa… Muito obrigada e bem hajam.




Uma das sessões de biblioterapia.



- Igualmente nos merecem especial menção as frequentes “tardes recreativas”, iniciativa do Pelouro da Cultura da Junta de Freguesia, com a simpática e graciosa colaboração de grupos de música regional, aliás sempre muito bem acolhidos, não só para distracção, como também para um saudável convívio e alegria para todos!


Tarde recreativa com o Grupo de música regional UMATI / Grupo de Cavaquinhos da Universidade Minhota Autodidacta e da Terceira Idade.



- Numa outra perspectiva, agora já de índole mais cultural, uma justa menção para o excelente trabalho da mestranda Rolanda Gomes que, sob a orientação da Universidade do Minho (com quem, aliás, a Junta de Freguesia de S. Vicente regularmente colabora em diversos projectos, no âmbito da Licenciatura e Mestrado em Educação) ali vem exercendo profícua acção, conforme se depreende do texto assinado pela própria e que de seguida se transcreve:

No âmbito do Mestrado em Educação, área de especialização em Mediação Educacional e Supervisão na Formação, foi estabelecido um Protocolo entre o Instituto de Educação da Universidade do Minho e a Junta de Freguesia de São Vicente, Instituição que acolhe a Mestranda Rolanda Gomes para realização do Estágio Profissional do referido Mestrado.

O projeto intitula-se "Mediar para Integrar" e tem como público-alvo Idosos e Cuidadores da freguesia de S. Vicente. Uma das iniciativas deste Projeto prende-se com a criação e dinamização do Gabinete de Mediação do Idoso e do Cuidador, sito na Junta de Freguesia de São Vicente. Neste âmbito foi criada uma parceria com o Asilo de S. José (resultante do protocolo com a Junta de Freguesia de S. Vicente) para a criação e dinamização de sessões de capacitação dirigidas aos colaboradores da instituição intituladas MediAção – Mediação em Ação, que pretendem capacitar os profissionais no âmbito de competências de comunicação e relacionamento interpessoais. Estas sessões de capacitação (10 no total) desenvolvem-se entre Janeiro e Junho de 2016 e englobam temas como a empatia, assertividade, trabalho em equipa, resolução de problemas, entre outros.





TESTEMUNHOS



Mário da Silva Queirós, utente do Asilo de São José.

Nos seus provectos 94 anos de idade, o Sr. Mário Queirós é um dos utentes mais idosos do Asilo de S. José. Não se julgue, porém que estamos perante um homem acabrunhado ou desiludido da vida, antes pelo contrário, a sua excelente postura e impressionante lucidez de espírito, fazem deste homem um verdadeiro exemplo de fair play e autêntico amor à vida! Encontrámo-nos no café; durante largos minutos, e em amena cavaqueira, lá fomos “pondo a a nossa conversa em dia…”

Órfão de pai e mãe, desde muito cedo experimentou as agruras da vida. Aos sete anos já estava na Oficina de S. José, onde permaneceu durante mais quatro, até que foi requisitado para a loja de um tio, a chamada “Casa das Crianças”, aqui em Braga. Entretanto e já mais crescidote, ei-lo em Lisboa, para onde foi trabalhar numa casa de artigos para homem, senhora e criança, aí permanecendo cerca de trinta anos. De novo em Braga, agora já como sócio do tio, na mesma loja de antigamente, pouco tempo esteve no activo…. Sem ninguém a incomodá-lo, procurou, então, abrigo no Asilo de S. José, uma casa excepcional, onde todas as pessoas são maravilhosas: desde os funcionários até às Irmãs e Direcção, são tudo do melhor que há, sublinha com indesmentível satisfação. Autodidacta por natureza, Mário Queirós, já conhece meio mundo, por essa Europa fora…, graças a umas economiazitas granjeadas enquanto pôde… Aqui fica, para memória futura, o breve testemunho de um utente do Asilo de São José que sente muito orgulho em ter alguma cultura, gostar de música clássica e apreciar ópera como poucos…” Eternamente agradecido ao Asilo, um verdadeiro exemplo de solidariedade social!


À conversa com o Sr. Mário da Silva Queirós.



Irmã Luísa Silva, Directora Técnica do Asilo de S. José:

“O Asilo de São José é uma Instituição de Solidariedade Social, a qual se dedica apenas ao cuidar e cuidar bem dos idosos que aqui procuram um aconchego e um amparo para minimizar as suas limitações e solidão. A nossa forma de estar no hoje da História é dar a cada utente desta Instituição o valor que cada um tem por si só; relevar as suas qualidades e procurar em conjunto razões válidas para o seu viver; demonstrar que a vida de cada um é a “pérola” mais valiosa que alguém possui. Desde 1850 que o Asilo de São José procura responder às necessidades de cada tempo. Nos dias de hoje acolhemos 106 utentes – é a capacidade máxima desta Instituição, a qual está sempre completa. Aliás, o nosso desejo era podermos responder a um número muito maior, olhando às necessidades que vêm até nós, tão prementes e desejosas de quem as ajude na resolução dos seus problemas. Temos como preocupação máxima criar um ambiente o mais familiar possível e ir de encontro aos anseios de cada um dos nossos utentes. A promoção do bem-estar, quer nas estruturas, quer a nível pessoal, é uma preocupação constante de quem tem esta responsabilidade do cuidar”.



Albertina Lopes, Animadora Social.

Como animadora social no Asilo de S. José registo, com o maior agrado, todas as iniciativas promovidas pela junta de Freguesia de S. Vicente, representada pelo Dr. Domingos Alves, sempre muito solícito e atencioso para com os residentes. As atividades musicais, com a presença de variados grupos de música regional, são muito apreciadas pelos utentes; alguns “atrevem-se”, mesmo, a um pezinho de dança, para gáudio de outros tantos… São tardes, de facto, muito alegres e animadas!

As sessões de biblioterapia constituem, igualmente, momentos de grande convívio e participação colectiva, com algumas histórias a reviverem a memória dos presentes, que gostam de participar e intervir, assim acrescentando algo ao que as técnicas vão dizendo…

É, pois, com grande satisfação, que aprecio o empenho da Junta de Freguesia em manter este tipo de iniciativas na nossa Instituição, para além das diversas actividades de animação já existentes, tais como: jogos de memória, expressão plástica, trabalhos manuais, aulas de ginástica e música e contacto com as novas tecnologias-neste caso quando as circunstâncias o permitirem, ou seja, quando houver possibilidade de adquirir alguns computadores portáteis, bem mais fáceis de manusear, como facilmente se compreenderá, por aqueles a quem prioritariamente se destinam: alguns dos nossos utentes mais capacitados.







- Instituição verdadeiramente exemplar- a segunda mais antiga da cidade de Braga, logo a seguir à Santa Casa da Misericórdia -no domínio da assistência aos mais carenciados e desprotegidos, o Asilo de S. José acolhe nas suas instalações 106 utentes, dos quais, nesta data, três senhoras com mais de 100 anos (Maria Luísa Ferreira, Virgínia Vieira e Ermelinda Cândida) e três outras, com mais de 50 anos “de casa” (Rosa Vilaça, Maria José Freitas e Balbina Vieira). Para garantir o seu bom funcionamento conta com cerca de sessenta e cinco funcionários e colaboradores, incluindo um director clínico, um médico cardiologista (voluntário), um psiquiatra, uma psicóloga, um dermatologista, uma pedóloga, um fisioterapeuta, duas animadoras sociais, musicoterapia, ginástica, cabeleireiro, e serviço religioso diário. Para além das enfermeiras religiosas, igualmente ali prestam serviço cinco enfermeiras civis.





Finalizo, com Carlos Jaca, in ob. cit. “Do Convento das Teresinhas ao Asilo de S. José” : “O Asilo de S. José, instituição de solidariedade social, que vem atingindo há já alguns anos uma notoriedade impossível de passar despercebida, ultrapassando em larga medida as suas próprias fronteiras, parece-me ser uma Obra que não terá sido ainda devidamente reconhecida”.



                 Braga, Abril de 2016.

                 Domingos Alves, vogal para a Educação e Cultura da Junta de Freguesia de S. Vicente.





Agradecimentos:


À Direcção do Asilo de S. José, pelas facilidades concedidas;

Ao amigo e especialista em História da Arte, Doutor Eduardo Pires de Oliveira, pela prestimosa colaboração.



             Nota – Por decisão pessoal, o autor do texto não segue as regras do chamado “Novo Acordo Ortográfico”.



terça-feira, 5 de janeiro de 2016

O 50º ANIVERSÁRIO da RUSGA DE S. VICENTE

Rusga: “É gente que vai, faz e vem das festas…”


1. “A Rusga de S.Vicente / Grupo Etnográfico do Baixo Minho” é hoje, indiscutivelmente, uma referência cultural de prestígio para a cidade que a viu nascer; sem dúvida, uma digna representante de toda a região geo-etnográfica baixo minhota – quer a nível regional e nacional, quer mesmo a nível internacional – enquanto Associação que visa o estudo, salvaguarda, divulgação e promoção de um vasto património de valor inestimável, através de uma forte dinâmica merecedora de especial referência.

“Até finais da década de 70, a Rusga existia quase exclusivamente por ocasião das festividades do S. João desaparecendo, quase de imediato, até ao ano seguinte. Na década de 80, porém, entramos num novo ciclo” – esclarece José Pinto, então um jovem ligado aos escuteiros e que entusiasticamente acedeu ao convite do “Fecisco” para com ele partilhar os destinos da Rusga, acabando por ficar até hoje, agora como actual presidente e director artístico do Grupo, já formalmente instituído como Associação.

Corria o ano de 1965, alguns dias antes dos tradicionais festejos da cidade de Braga (S.João da Ponte), encontrando-se o Fecisco (José Teixeira Gomes Machado) e o Gaspar Maleiro (Gaspar da Silva Ferreira) numa das suas habituais “cavaqueiras” nocturnas quando, ao recordar velhos tempos, vêm à baila as festas e romarias de antigamente. Logo concluíram que aquelas estavam a perder qualidade e popularidade de ano para ano, tendo como exemplos evidentes o Arraial de Santa Marta da Falperra e os Festejos Sanjoaninos da Augusta cidade. 

É nessa altura que se lança a ideia de se juntarem alguns amigos tocadores (concertina, bombo, ferrinhos e reque-reque) e, ao som destes, irem Avenida abaixo cantando e dançando para depois, uma vez chegados ao terreiro da grande romaria de S.João da Ponte, aí comerem e beberem do merendeiro.


Rusga primitiva


Nascida, pois, de um acto consciente e de um esforço conjugado, a Rusga chega até aos nossos dias – passadas que são cinco décadas - mercê de uma salutar teimosia e enorme persistência, de extremosas dedicações e de um trabalho intenso levado a cabo por um punhado de homens e mulheres que, ano após ano, se vão continuamente rejuvenescendo, e assim a vão mantendo, sempre bem viva e actuante, como fiéis depositários da cultura popular, verdadeiro legado/ herança dos seus antepassados.


2. Paralelamente à intensa actividade étnico/folclórica de todos sobejamente conhecida e apreciada, quer em Portugal, quer além fronteiras, para onde é frequentemente convidada – como aconteceu, por exemplo, no passado mês de Agosto, quando representou Portugal no XXIX Festival de Folclore da cidade de Corunha, ao lado de outros grupos - mais concretamente o “Fan Yu Dancing Ggoup”, de Taiwan, o “Grupo Folclórico Vallastra Azteca”, do México e o “Grupo Assiciación de Coros e Danzas de Eidos”, da Corunha – a Rusga de S.Vicente / Grupo Etnográfico do Baixo Minho, de igual modo se tem notabilizado pela organização de outras iniciativas culturais não menos portadoras de significativo e justificado interesse cultural: os muito típicos e famosos “Serões do Burgo/Tertúlias Rusgueiras”, geralmente de periodicidade mensal, nascidos em Janeiro de 2004, e que até ao presente contabilizam já perto de uma centena de sessões, com muitos e ilustres convidados/especialistas oriundos das mais diversas áreas, desde a ciência à política e culinária. Estas iniciativas vieram, sem dúvida, imprimir um ritmo diferente à vivência cultural da cidade, destacando-se pelo seu papel ao nível da intervenção cívica. De entre estes, uma breve referência ao Serão/ Tertúlia realizado em Dezembro de 2013 e cujo tema “Alminhas – crença e cultos” teve como convidado especial João Duque. Para este teólogo e professor da Universidade Católica, as Alminhas “são locais que nos remetem para memórias e saudade mas, fundamentalmente, locais públicos de oração, sendo essa a razão de considerarmos esse culto verdadeiramente democrático, ou popular, que chega aos nossos dias, com mais ou menos vigor, trespassando séculos de história e fé”.


3. Aliás, esta temática “serviu de mote ao excelente projecto “Alminhas”, da Rusga de S.Vicente, sob a coordenação científica da Drª Aida Mata. Segundo esta especialista, “o trabalho resultou num repositório que conta com mais de 150 nichos de Alminhas - na sua maioria bem conservados - inventariados através de fichas de registo e respectiva sinalização no território, cobrindo todas as freguesias do concelho bracarense (…).” Trabalho ímpar, sem dúvida, que deu origem à exposição Alminhas de lá, património de cá, que teve lugar em Novembro de 2014 e que desde logo contou com o apoio da Câmara Municipal de Braga para, com as Juntas de Freguesia se disponibilizar, tendo em vista uma futura publicação. Até ao momento, e segundo a Drª Aida Mata, “ainda não foi possível concretizar esta ambição, que passaria por um livro/DVD, inicialmente orçado em 14 mil euros”; no entanto, a mesma está convicta de que “a publicação há-de sair neste ou noutro formato, porque é um trabalho notável, que não se pode perder”. Assim o desejamos e, sobretudo, assim o esperamos…

Igualmente inserida na temática do Além, refira-se a excelente encenação da “Encomendação, Botar ou Lançar as Almas” – Memórias de um ritual, que teve lugar em Março de 2013 no Miradouro do Sagrado Coração de Jesus, Campus Camões, da Univ. Católica, sito na rua Camões, freguesia de S.Vicente, tendo como convidada a Drª Alexandra Esteves. Segundo esta especialista, “já em 1254, no tempo do Papa Inocêncio IV, era conhecido o ritual ligado ao culto das almas (“as almas eram purgadas dos seus pecados através do sofrimento pelas chamas e das orações dos fiéis devotos”). Só depois de expiados os seus males e “limpas” das suas “faltas”, elas estariam em condições de ir para o “Reino da Glória”. Igualmente o Concílio de Trento, sobretudo através das confrarias implementadas pelas Ordens Religiosas, apelava à necessidade de “orar pelas almas do Purgatório”. Em 1537 o Arcebispo de Braga mandava que se rezasse “pelas benditas almas do Purgatório”.

Este “Culto de Encomendação das Almas”, como também o “Culto das Ave Marias” e das “Trindades”, era habitualmente protagonizado por grupos de mulheres, ainda que, por vezes, o fosse também por homens ou, então, conjuntamente por homens e mulheres. As chamadas lançadeiras, ou lançadores, do “Deitar das Almas”, pelas “Trindades”, subiam aos lugares mais altos das aldeias, empoleirando-se em árvores, para daí lançarem o ritual cantado. Nas cidades também se praticava este ritual; eis a letra de um dos espécimes recolhidos pela Rusga, lançados a partir do “Penedo da Moura”, espaço contíguo ao reservatório da Rua Camões, em S.Vicente:


Alerta, alerta

A vida é curta

E a morte é certa…

Ó irmãos meus,

Filhos de Nosso Senhor

Jesus Cristo;

Quem puder

Reze um Padre Nosso

E uma Avé Maria

Pelas benditas almas

Que estão no Purgatório…



Representação do “Botar ou Lançar das Almas”


A manifesta variedade temática destas iniciativas da Rusga de S.Vicente estende-se por outras áreas, nomeadamente pela diversão/folguedo como acontece, por exemplo, no Carnaval com a muito curiosa corrida do entrudo “ olha o home, lá bai o home”, mai-la sugestiva e cómica leitura do “testamento do Libório Caturra,” sempre tão do agrado de miúdos e graúdos, ou pela participação, agora já mais de âmbito cívico/cultural, a partir de 2009, como foi o caso dos chamados “Rusgos Vicentinos” - cujo objectivo primeiro foi “dar a conhecer, com o apoio, acompanhamento e análise crítica de especialistas, diversos locais de interesse histórico e etno/histórico, dentro e fora da cidade, exemplos do Museu de Arqueologia D.Diogo de Sousa e do Museu da Imagem”, segundo as palavras de José Pinto. 



Queima do home (Entrudo)


4. A recordação histórica dos “usos e costumes” é também magnificamente concretizada pela produção de “Um casamento Minhoto, inícios da segunda década do século XX” encenação já levada a cabo em diversas localidades, inclusive Braga, Porto, (Teatro da Trindade) e Lisboa (Aula Magna), com honras de reportagem televisiva. Para quem ainda não viu, aqui vai uma nota introdutória: “A reposição deste trecho etnográfico - “ Um casamento Minhoto” – visa, por um lado, salvaguardar e promover a cultura popular de tradição e, por outro lado, valorizar e promover os diferentes patrimónios inerentes: humano, material e imaterial. Se no jogo e espaços cénicos, o espectáculo assenta no património edificado da freguesia – igreja do Mártir S.Vicente e casa Vale Flor de Infias -, já em termos de guião privilegia-se o imaterial, através de uma narrativa sustentada na investigação e na tradição oral. Assim se justifica, ao nível dos rituais, o arco de casamento e respectiva simbólica, a rica indumentária e demais figurinos, o repasto da boda, bem como os espécimes tocados, cantados e dançados. No entrecruzar dos patrimónios em referência, é notória e intencional a ênfase dada ao património primeiro, as gentes da nossa região geo-etnográfica baixo-minhota: homens e mulheres que herdaram, usufruíram, acrescentaram e legaram saberes, experiências, sentimentos, emoções, usos e costumes; vivências e convivências.


5. Igualmente de referir o “Serão/Sarau” evocativo do 10º aniversário dos “Serões do Burgo/Tertúlias Rusgueiras” realizado no teatro da Escola Secundária de Sá de Miranda em Março de 2014, com o espaço literalmente esgotado e a participação de vários grupos musicais e instrumentais, bem como de mais de duas dezenas de convidados “repescados”, seleccionados a partir das 72 edições até então realizadas, com a intenção de serem relembradas as temáticas na altura por eles próprios desenvolvidas.

Menção, ainda, para o “Serão/Tertúlia” (75ª edição -Bodas de Diamante), que teve lugar na Sede da Rusga, distribuído pelos dias 10 de Abril de 2015 (1ª parte) e 17 do mesmo mês (2ªparte) subordinado ao tema “Vidas Cruzadas – Confidências Partilhadas”, com o testemunho pessoal de vários convidados, entre os quais me encontrava, em representação da Junta de Freguesia de S.Vicente.


6. As Conferências Rusgueiras. Também no âmbito do 50º aniversário da Rusga de S.Vicente, seja-nos igualmente permitido relevar a 1ªedição das Conferências Rusgueiras/Arco Cultural – 2014, subordinada ao tema “Religiosidade popular – Crenças, cultos e promessas”, mais uma excelente iniciativa cultural que teve lugar no Museu D. Diogo de Sousa, em parceria com o Centro Regional de Braga da Universidade Católica Portuguesa e a Universidade do Minho. Apraz-nos referir o elevado grau científico dos vários painéis, onde intervieram especialistas portugueses e espanhóis. Aliás, e segundo a coordenadora da iniciativa, Aida Mata, as Conferências Rusgueiras” terão uma periocidade bienal, pelo que voltarão a realizar-se em 2016, tendo por tema “Festa e Romaria”.



Uma perspectiva da Expo Alminhas


Exposição “Há 50 anos a Rusgar”. Integrada, também, nas comemorações dos 50 anos da “Rusga de S.Vicente/Grupo Etnográfico do Baixo Minho”- para além de outras iniciativas que por certo deverão, ainda, ser levadas a cabo - saliente-se a magnífica exposição temática relativa à efeméride. Várias dezenas de peças, “celebram” este aniversário, de entre as quais se encontra o arco da “Rusga do Século XXI”, … “arco de plástico, mais moderno”, ali colocado “em jeito de provocação” para, deste modo, significar que na Rusga do século XXI, “os rusgueiros não levam trajes; vestem calças de ganga. Segundo José Pinto, “a tradição, para se manter, tem que se reactualizar no tempo, sob pena de não garantir a transmissibilidade. Se continuássemos a sair só de trajes, não tínhamos jovens”. 



Exposição “Há 50 anos a Rusgar”


Neste caso, permitam-me que alimente a esperança de que essa dita transmissibilidade não aconteça assim tão rápido quanto nos parece; é que as mudanças, sobretudo quando respeitam à tradição, sempre implicam alguma prudência e, por consequência, certos riscos a evitar, independentemente de sermos favoráveis e, por isso mesmo, bem compreendermos a inevitável dinâmica dos tempos… Jamais esqueceremos, todavia, que “defender o Património Cultural de um Povo é garantir, mais do que o seu presente, o seu futuro, o seu alimento” – Ademar Ferreira dos Santos, 1982; in ASPA 35. 





Fontes informativas:

· Várias edições do jornal “Diário do Minho”; Opúsculo/ historial da Rusga;
· Anotações e reflexões pessoais.



BRAGA, Agosto de 2015

Domingos Alves, 
Vogal para a Educação e Cultura da Junta de Freguesia de S. Vicente.



PS – A Assembleia de Freguesia de S.Vicente, na 7ª sessão ordinária de 08 de Abril de 2015 aprovou, por unanimidade, um Voto de Louvor pela passagem do 50º aniversário da Rusga de S.Vicente-Grupo Etnográfico do Baixo Minho referindo, entre outros pontos, os seguintes: “…Congratulamo-nos por ter na nossa freguesia um Grupo que tanto faz pela preservação das tradições da nossa região, não as deixando cair em esquecimento, nomeadamente através da forte dinâmica que empregam na sua divulgação; desejamos que a Rusga de S.Vicente continue a desempenhar o papel que até aqui tem vindo a realizar, e que continue a ser um orgulho para todos os vicentinos, em particular, e para todos os bracarenses, em geral”.



sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Dr. Egídio Guimarães, 101º Aniversário do seu Nascimento

Ocorre, no próximo dia 04 de Julho, de 2015, o 101º aniversário do nascimento do Dr. Egídio Guimarães. No suplemento CULTURA, de 27/08/2014 do “Diário do Minho ”tive, então, oportunidade de, em breves palavras, manifestar o meu singelo testemunho acerca de tão notável figura da cultura bracarense da 2ª metade do século XX. Hoje permito-me acrescentar algo mais, desta feita para sublinhar alguns escritos de duas personalidades bem conhecidas que, tal como eu e muitos outros, mais de perto com ele privaram: o Dr. Armando Malheiro Dias e o escritor Altino do Tojal.

1. Na “Bracara Augusta”, vol. XLIII, nºs 94/95 (107/108), Anos de1991/1992, Câmara Municipal de Braga, escreve, nomeadamente, Armando Malheiro da Silva:

“ A minha relação pessoal com o Dr. Egídio Guimarães começou, cresceu e consolidou-se sob o signo do deslumbramento. Há cerca de vinte anos um jovem liceal, dividido entre a hipótese de cursar Direito e a atracção irresistível pela História, deixou-se tocar pelo mágico e subtil fascínio de um Homem, admiravelmente culto, que marcava presença num curso de Arqueologia, ministrado pelo saudoso Cónego Arlindo Ribeiro, no Palácio dos Biscainhos. (… ) Em ambiente tão sugestivo ocorreram as primeiras conversas, tímidas e formais, entre um miúdo à procura do Saber, dentro e fora dos livros, e um Senhor (…), aparentando muita mais idade. Um Senhor que tratava os novos como seus convivas. Era surpreendente!” E mais adiante: “Hoje sei que nesse encontro nasceu um sonho: conviver e trabalhar, sob o olhar zeloso e o estímulo seguro do Dr. Egídio.” (… ) “Era um erudito completo e cidadão politicamente atento, que dominava as mais diversa línguas (incluindo o Latim, é claro!).

E prossegue Armando Malheiro da Silva: “Herdeiro intelectual do Dr. Alberto Feio, bibliotecário e director marcante, o Dr. Egídio Guimarães não foi, certamente, um inovador, mas soube gerir a continuidade com muito tacto e muita generosidade. Um subalterno não era um mero autómato submisso: era uma pessoa com qualidades e defeitos, com ambições e problemas para serem ouvidos e satisfeitos, na medida do possível. O Dr. Egídio sempre se predispôs a ouvir e a consolar os espíritos amargurados. Recusou a postura autoritária típica dos “mangas de alpaca” promovidos a donos do seu bafiento universo e praticou, antes, aquilo a que eu chamaria a “tolerância maiêutica”, ou seja, a exigência do cumprimento do dever através do apelo subtil à consciência do outro.” (…) “Reformado em 1984… não abandonou gabinete, nem se despediu dos colaboradores, porque a instituição e as pessoas souberam dizer-lhe, muito naturalmente e sem complicações burocráticas, ou intenções perversas, quanto estimavam e precisavam da sua presença…” 

2. De uma entrevista do escritor Altino Tojal, respigámos a seguinte passagem: ”Regressei a Braga, onde o director da Biblioteca Pública, Dr. Egídio Guimarães, me contratou para fazer uns pequenos serviços… 

(…)

- “ Com a escrita sempre presente…

- Sim, vivia exclusivamente para a literatura.

- Nunca pensou noutra coisa?

- Nunca, apenas em escrever. Nascera para escrever, nada mais interessava. Convivia na Biblioteca com pessoas cultas, entre quilómetros de calhamaços fascinantes…O director da Biblioteca apreciava deveras as coisas que eu escrevia e não descansou enquanto não as publiquei em livro. Estava bem mais impaciente que eu… Custa a crer, mas garanto que eu não tinha ansiedade nenhuma em publicar aquilo que seria “Os Putos”. Era capaz de estar dias e noites virado a uma só página. Mas enquanto não considerasse que ela estava em condições de ser apresentada ao Dr. Egídio Guimarães…

- Ele funcionava como crítico?

- Como um crítico consciencioso e benévolo. (…) Era um intelectual de fino trato, com cavalheirismos de antanho, amigo discreto mas sólido, um espírito nobre, o embaixador ideal para interceder junto do Eterno pela mesquinha Humanidade.

Também intercedia por mim junto das personagens “de peso” que o visitavam na Biblioteca, mostrando-lhes o meu livro “ Sardinhas e Lua” acabado de publicar e exagerando-lhe talvez os méritos. Foi em boa parte graças a ele que estabeleci contactos com o “Jornal de Notícias”, do Porto, e comecei a experiência jornalística…”

3. Faceta não menos curiosa do Dr. Egídio, um “monárquico profundamente católico, naturalmente conservador, mas tolerante”, era a de benfeitor, tendo doado diversos bens imobiliários, tais como, por exemplo, os terrenos onde está implantada a Escola EB1 de Fraião, ou o Centro Toutinegra da APPACDM, também em Fraião. Mesmo quando pôs à venda alguns terrenos, estes eram a preços tão baixos que houve quem espalhasse a notícia de que havia um senhor em Fraião que “dava terrenos”. Quando uma das filhas “politicamente de esquerda”, soube desse boato, avisou o pai. Naquela simplicidade que lhe era tão peculiar o Dr. Egídio, sempre muito simpático e sorridente, apenas gracejou: “afinal de contas, apenas pratico o socialismo, partilhando os bens com os mais pobres…”

4. O Dr. Egídio Guimarães era, de facto, uma verdadeira “avis rara”do meio cultural bracarense! Seu grande amigo e admirador, a ele dedicou o Dr. Henrique Barreto Nunes três excelentes artigos no suplemento CULTURA deste jornal, datados de 02 de Julho, 09 de Julho e 17 de Setembro de 2014, e cuja leitura vivamente recomendo. Com a devida vénia, aqui se reproduz o pequeno extracto de um deles:

“Em Julho passado, no mês em que se celebrava o centenário do nascimento de Egídio Guimarães, a Biblioteca Municipal Rocha Peixoto…dedicou-lhe uma exposição bibliográfica e documental, de que foi publicado o imprescindível catálogo… A publicação inclui o texto da proposta apresentada pela Comissão de Toponímia e fotos da rua e respectiva placa, uma biografia cuidadosamente ilustrada, a reprodução de uma carta dirigida a Flávio Gonçalves e excertos do texto que EAG lhe dedicou no vol.26 do “Boletim Cultural”, uma bibliografia e ainda o artigo em sua memória publicado no “Diário do Minho” (secção “Entre Aspas”) em 30 de Junho, de 2014. Ficou assim recordada a figura de Egídio A. Guimarães, celebração que a Câmara Municipal de Braga ainda não soube fazer, apesar deste homem de cultura ter sido vereador em duas ocasiões e ter servido sempre devotadamente o concelho…” - Henrique Barreto Nunes, in “Diário do Minho”, 17/09/2014.

5. Homem desprovido de toda e qualquer vaidade, ou dispensáveis protagonismos sem sentido, o Dr. Egídio sempre pautou a sua conduta por gestos simples e afectos admiráveis. Após o artigo por nós enviado, em 28/08/2014, à Senhora Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Braga e em que sugeríamos “um busto condigno em local nobre da Biblioteca Pública/Arquivo Distrital de Braga…” – “Diário do Minho”, 27/08/2014 – foi-nos comunicado, por e-mail de 02/10/2014, que o mesmo tinha sido “encaminhado para o serviço competente”. Infelizmente e quanto a factos concretos, até hoje, nada de novo, a não ser a nossa persistência e firme convicção de que todo este atraso não tenha passado de um lamentável esquecimento por parte de quem de direito. “ Egídio Guimarães foi uma personalidade que deixou marcas impressivas na vida cultural bracarense do séc.XX” – Henrique Barreto Nunes – in “Diário do Minho”, de 09/07/2014 – mais acrescentaremos nós: Egídio Guimarães deixou em Braga, pelo menos para os mais esclarecidos e atentos cidadãos, um rasto cultural bem difícil de passar despercebido, como, aliás, foi unanimemente reconhecido pela Assembleia Municipal, aquando do “VOTO DE PESAR”, exarado em 02 de Março de 1991: “O Dr. Egídio Guimarães distinguiu-se, em primeiro lugar e antes de tudo, pela sua visão e vivência Humanista da sociedade” (…) “ A sua luta pela defesa e divulgação da cultura bracarense, bem como do seu espólio cultural, transformou este Homem num verdadeiro defensor da vida cultural como forma de defender esse princípio tão português, como é o MUNICIPALISMO”.

6. Por conseguinte, a nossa sugestão, ou outra que se entenda como mais adequada, mantem-se perfeitamente actual; aliás, é uma questão de pura justiça e esta, como é evidente, não se mendiga, exige-se. 

BRAGA, Junho de 2015

Domingos Alves,
Vogal para a Educação e Cultura da Junta da Freguesia de S. Vicente.



PS. De entre os numerosos trabalhos publicados, salientamos os seguintes:


“Os Lusíadas e a Independência de Portugal”, in Homenagem da Academia de Braga aos Restauradores da Pátria, 1933, Nº único;

Balâne, in Aos Heróis de 1640, Academia de Braga, 1934. Nº único;

“Congresso Histórico de Portugal Medievo: catálogo da exposição historiográfica no Salão Medieval Superior da Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Braga. Braga: Câmara Municipal de Braga, 1959;

TOJAL, Altino do – “Sardinhas e Lua”: contos. Braga: Editora PAX, 1964. Prefácio;

“A Cúria Régia de Braga de 872 e o Conde Vímara Peres. Braga: Câmara Municipal, 1968. Trabalho elaborado em colaboração com Sérgio da Sila Pinto;

PINTO, Sérgio da Silva – “Estudos e Comentários”. Braga: Câmara Municipal, 1973. Vol. I. Pórtico.

Cónego Arlindo Ribeiro da Cunha: breve biografia. “O Distrito de Braga”, 2ª série. Braga, 1977;

“Uma página de memórias. À laia de prefácio”. Braga, 1986. In MONTEIRO, Manuel – Dispersos, inéditos e cartas: ASPA 1980. pp. V/XV;

“Morte e ressurreição de um palácio”. Braga: ASPA, 1985;

“O meu amigo Gervásio e sua filha catedrática”. Braga: APPACDM, 1986;

“Arquivos: a herança sagrada”. In “Forum”, nº 8, Arquivo Distrital de Braga, 1990. Pp 21/32 Conferência pronunciada na U.M. em 23/05/1986;

“Álvaro Carneiro: in memoriam”. In “Mínia”, nº 8, ASPA, 1986, 313/318;

TOJAL, Altino do – “Os Putos”. Lisboa, 1989. Edição comemorativa do 25º aniversário de “Os Putos” (1964/1989). Prefácio;

“Sete Cartas de Alexandria: uma trilogia: Manuel Monteiro, Albano Justino, Lopes Gonçalves e Braga. In Revista “Bracara Augusta”, Câmara Municipal de Braga, Vol. XL, 1986/1987

“Depoimento sobre o Parque Nacional de Peneda –Gerês e a abertura da Portela do Homem”. In “Giesta”, nº 2, 1980;

“O Arquivo Distrital de Braga”. Nota Explicativa e Informativa para a U. M. Texto elaborado para a comemoração do IX centenário da dedicação da Sé Catedral Bracarense e o insigne e famoso bispo D. Pedro. Associação Comercial de Braga, 1989;

Muita e variada publicação em jornais e revistas, nomeadamente nos periódicos bracarenses “Diário do Minho” e “Correio do Minho”;

Foi autor de traduções do italiano, do francês e do romeno;

O seu espólio literário e de investigação contempla, ainda, uma boa série de trabalhos inacabados, bem como outros por publicar. Exemplo: “A dúvida metódica em Francisco Sanches, precursor de Descartes: o Quod nihil scitur”.

Nota. Um agradecimento muito especial ao meu amigo Dr. Fernando Guimarães pela cedência de fotos e abundante informação histórica e biobibliográfica que me facultou para a elaboração deste artigo.



O LATIM na BRAGA ROMANA – 2015

“ Tem o Latim de ser considerado como língua de cultura que, enquanto tal, prevaleceu muito para além dos tempos gloriosos e longínquos do Império Romano, cultivada, ao longo de vários séculos, por cientistas e homens de letras, poetas e filósofos, que a elegeram como meio de comunicação dos múltiplos saberes que foram constituindo…” – Cristina Almeida Ribeiro, citada por Domingos Alves, in Diário do Minho de 08/06/9.

· Tive oportunidade de visitar as três Praças de Alimentação, no Largo das Carvalheiras, Largo de S.Paulo e Largo de S.Tiago e foi com visível agrado que constatei, “in loco”, que parecem finalmente desaparecidos “ad aeternum” os tão famigerados utensílios de alumínio, plástico, e afins, utilizados para serviço das muitas e variadas refeições/petiscos, desta vez substituídos por outros de barro, aliás bem mais frescos e “romanos”… Pena que a identificação das ementas, ou pelo menos de alguns produtos, não aparecessem escritos em Latim, ainda que morfologicamente adaptado. Aliás, o rico património que os romanos nos legaram não se resume apenas ao valioso espólio arqueológico de que Bracara Augusta se pode e deve orgulhar. A Língua Latina (a verdadeira mãe da Língua Portuguesa) deveria, pois, também estar presente; infelizmente, porém, não foi isso o que se verificou - houve algumas honrosas excepções, diga-se, desde já. Com efeito, poucas foram as tendas que tiveram essa preocupação, sem que se possa, de todo, responsabilizar a Organização da “Braga Romana” e, neste caso, a Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva que, em parceria com a Câmara Municipal e o pelouro da Cultura da Junta de Freguesia de S.Vicente, tudo fizeram para que tal não viesse a acontecer, ao terem organizado, gratuitamente, umas simples, mas certamente muito úteis, “Breves Oficinas” de Latim. Evidentemente que me refiro, apenas e tão só, às tendas comerciais, de alimentação e afins. Quanto a outras áreas, estas já da exclusiva responsabilidade da Organização - com quem, aliás, tivemos o gosto e a honra de colaborar - todo o agrado e satisfação pela sinalética exibida nas diversas faixas e cartazes, quer das realizações lúdico/pedagógicas, quer dos magníficos cortejos histórico/alegóricos, onde o empenho e a preocupação pelo rigor linguístico da língua do Lácio por certo não passaram despercebidos a quem quer que fosse. É que, apesar de nem sempre fácil, tornava-se deveras imperiosa e absolutamente exigível, face à contextualização histórico/literária, uma concreta referência, ainda que pontualmente breve, à verdadeira “língua dos romanos”…

Relativamente aos factos/acontecimentos da “Braga Romana” propriamente dita, permitam-me algumas breves referências, agora de ordem histórico/cultural, assim mais ou menos “ad hoc…”, e que certamente, de modo particular, feriram a nossa atenção:

1. “Ludi Litterarii”. Enorme cortejo pedagógico/cultural, de mais de 5.500 crianças oriundas de diversas instituições de ensino, emprestando às ruas do Centro Histórico por onde passavam uma graciosidade e colorido verdadeiramente encantadores!

2. Com a solene imponência do “Bracara Augusta Triumphalis”- vários quadros alusivos ao período romano – de novo se repetiu uma excelente “recriação histórica da entrada triunfal de César Augusto na bimilenar cidade de Braga”. Apenas um senão: pareceu-nos que, mesmo sem crianças, se transformou num cortejo demasiado longo…

3. Bela recriação do “Casamento Romano” levada a cabo pela Equipa Espiral.

4. Inovador concurso” De Familia Mea”, com as famílias bracarenses a serem desafiadas a usar, sem vergonha, os trajes da época romana durante todo o evento da “Braga Romana”.

5. Muito oportuna e sugestiva a referência da Associação Jovemcoop à vulgar “Casa Romana”, sediada no Largo de S.João do Souto, e onde se podiam admirar, por exemplo, os espaços do “Atrium” (entrada principal); do “Triclinium” (sala de jantar); e do “Cubiculum” (quarto de dormir).

6. Schola Romana, no edifício da Escola do 1º ciclo de S. João do Souto. Devo dizer, aliás, que foi das iniciativas que mais nos surpreenderam, sobretudo pelo conteúdo dos expositores que lá se encontravam: nada mais, nada menos que uma magnífica referência, em excelentes fotocópias a cores, à Língua e Cultura Romanas, onde podámos ler, entre outros títulos, os seguintes: “Quem eram os Romanos”? ; “O Latim e o Ensino”; “Vida Familiar”; Cidadãos e Governantes”; “Roupa, Penteados, Jóias”; “Exército Conquistador”; “Comida e Bebida”; “A Vida na Cidade e no Campo”; “Estradas, Fortes, Muralhas” – tudo numa síntese muito bem elaborada e com uma linguagem perfeitamente acessível à faixa etária a que se destinavam - talvez tivesse passado despercebido a muito boa gente... não, certamente, a nós próprio. Mérito por inteiro à Associação de Pais, Pessoal Docente, crianças, e todos os que tornaram possível um tão belo e oportuno trabalho histórico/pedagógico! 

7. Finalmente, o Polo museológico na zona das Carvalheiras. “A ideia é criar no local um polo museológico a céu aberto que permitiria, assim, um alargamento do centro histórico para aquela zona da cidade”…”que tem que integrar também, naturalmente, elementos de interpretação, de preservação de testemunhos que são susceptíveis à degradação das intempéries” – in Diário do Minho de 23/05/15. Ideia defendida pelo vereador da Câmara Municipal de Braga, Dr. Miguel Bandeira, aquando do colóquio “Cidades, Património e Desenvolvimento”, que decorreu no auditório da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva e cuja concretização, tão breve quanto possível merecerá, sem dúvida, o maior aplauso de todos os bracarenses!


PS. No âmbito da “Braga Romana”- 2015, tivemos ainda oportunidade de visitar, na Casa dos Crivos, a “Bracara From Augustus”, magnífica exposição fotográfica, com belíssimas fotos alusivas à Bracara Augusta. Para todos aqueles que, tal como eu, ficaram algo surpreendidos com o termo “from”, aqui fica a explicação que me foi dada: trata-se de” uma frase/slogan atribuída aos responsáveis pela Exposição”. Ainda que francamente discutível (daí o meu natural reparo) face ao contexto, a mesma aparece devidamente assinalada com aspas; assim sendo, nihil obstat…


Braga, 26 de Maio, de 2015
Domingos Alves



NO 107º ANIVERSÁRIO do NASCIMENTO de MIGUEL TORGA

Nascido em S. Martinho de Anta, Vila real, em 12 de Agosto de 1907, Miguel Torga veio a falecer em 17 de Janeiro de 1995, vitimado por doença que não perdoa.

Após breve passagem pelo Seminário de Lamego, ei-lo a demandar Terras de Santa Cruz onde, acolhido por uns tios, passa boa parte da adolescência e juventude, um tanto ou quanto desventuradamente, até de novo regressar a Portugal. Prossegue, então, os estudos secundários para, logo de seguida, se matricular na Faculdade de Medicina de Coimbra, onde conclui a licenciatura em Medicina. É, aliás, no consultório do Largo da Portagem, que exerce a actividade de médico otorrino, praticamente até aos últimos dias da vida aí produzindo, também, a maior parte da sua importante e vastíssima obra literária. 

1. Há 19 anos desaparecido da “terra-mãe” que o “pariu”, continua a fazer germinar, na mente dos seus leitores, e pela fecunda levedura dos seus versos, a ideia de que os verdadeiros poetas nascem, crescem e morrem mas, de facto, nunca desaparecem…E Torga foi, realmente, um grande poeta! Independente de tudo e de todos; medularmente avesso a correntes ideológico – partidárias (ainda que, por vezes, o tenham tentado instrumentalizar), ou seguidismos literários de que sempre se libertou, inflexível e sozinho traçou o seu próprio destino, numa verdadeira linha recta que não mais teve fim, a não ser com o inevitável fatalismo da morte, não se desviando jamais um milímetro que fosse da sua bem longa trajectória existencial. 

De espírito indómito, mas simultaneamente torturado:” Não tive paz, não dei paz, não quero paz”, confessa, meio resignado, meio angustiado: “… logicamente, devia ter ficado a cavar na minha terra, era esse o meu destino (…)” – citação do jornal “Público”, de 16-05-94, aquando do Prémio da Crítica, que na altura lhe fora unanimemente atribuído.

Mais que desassossego íntimo, a sua poesia a todo o momento nos transmite uma verdadeira necessidade ontológica: “preciso tanto de escrever, como a senhora de rezar o terço (… ), respondeu ele a uma veraneante, no Gerês, quando esta lhe perguntou por que motivo ele escrevia “tanto assim…”. O Pe. Avelino, grande amigo e singular companheiro de caça, dizia com certa graça: “Era normal comentarmos os tiros e os falhanços de um e outro. Numa dada altura levanta uma perdiz mesmo à nossa frente; ele atira e falha. Então? digo eu… Estava a desenrolar-se-me um poema”, respondeu ele! – Pe. Avelino, in “Público”, de 18-01-95.

2. De facto, M.Torga escreveu, escreveu muito, assim nos legando uma herança literária que o coloca, inequívoca e muito justamente, ao lado dos maiores escritores portugueses do séc. XX ou até, como refere o crítico espanhol Jesús Herrero na sua magnífica obra “M. Torga, Poeta Ibérico”, um dos maiores poetas da Península. Na verdade, “ cada palavra sua é uma pedra que nenhuma rajada de vento consegue erguer; e, pedra-a-pedra, uma anta arcaica erguida em terra de santo, particularmente São Martinho. Poderão os anos passar e mil ventos demoníacos soprar, aquela anta em terra santa permanecerá, rimando antiguidade com santidade, e o distante adeus (e com ele se ligando assim pelo som) com o eterno Deus. O distante ou quase inaudível é, na verdade, sagrado e eterno, e só se perde quando o ouvem ouvidos comuns; não eram destes ouvidos os de Torga. (… ) A única verdade a que existe dentro do homem; essa ninguém lha pode roubar. E uma pedra que o vento da história e da geografia não ousa erguer, e essa pedra, na verdade uma anta erguida em terra santa de S. Martinho, foi-nos legada por Migue Torga”. Jorge Chichorro, in “Expresso” de 28-01-95.

3. Poeta por excelência, mas igualmente grande no conto, no diário e na ficção autobiográfica, toda a obra de Miguel Torga está imbuída de um forte “telurismo” que certamente a ninguém passará despercebido: para ele, o conhecimento da terra no seu sentido estritamente material, a terrosidade do solo, como diz, é condição primaz para se pertencer, verdadeiramente a uma nação. E, por isso, se impôs a si mesmo, como dever de ética pátria, percorrer todo o corpo físico de Portugal. São de 1949 estas palavras: “é por funda necessidade cultural que eu peregrino esta pátria. ( … )”. “Eça falhou em “A Cidade e as Serras” porque nunca calcorreou as serras. Camilo é muito mais autêntico porque atolava os pés no barro que moldava. Temos de conhecer a nossa terra. Mas conhecê-la por dentro, sem preocupações históricas, arqueológicas, políticas ou outras. Conhecê-las como se conhece a mulher que se ama, com quem se dorme e com quem se repartem as alegrias e as tristezas” ( Diário V, pág. 60, citado por Jesús Herrero, in ob. cit., pág. 98/99.) 

4. Igualmente merecem oportuna referência as palavras de Fernão Magalhães Gonçalves, um dos seus mais fiéis e competentes estudiosos, como o confessa o próprio poeta ( “… e nunca senti um ser humano tão perto de mim. Convidei-o para almoçar, e só não peguei nele ao colo. Tinha a impressão de que estava diante da minha própria efígie depois de penitenciada num auto-de-fé.”)- Diário XI, Coimbra, 1973. É firme convicção deste especialista torguiano que “ a sua endógena e universalizadora fidelidade às origens ancestrais, a irredutível resistência libertária de franco-atirador que o opôs às ditaduras que se instalaram ou tentaram instalar-se no seu país, a transparência vernacular e empática da sua linguagem – transformaram Miguel Torga, através do consenso dos seus contemporâneos, numa autêntica consciência nacional, indisfarçável protótipo do cidadão português de sempre.” In “Ser e Ler Torga” ; Fernão Magalhães Gonçalves; Vega; Colecção Perfis.

5. Desta maneira envolto num apego à terra e às gentes simples da aldeia como nenhum outro, numa perspectiva tão natural e de fraternidade cósmica, que em certa medida nos faz lembrar o Santo de Assis, uma vez mais estou a imaginá-lo nas termas do Gerês, que assiduamente frequentava no Verão, caminhando e reflectindo pelas suaves manhãs de Agosto ou, então, já pela tardinha, entranhadamente agarrado às fragas da serra, sempre extasiado, contemplando o magnífico pôr-do –sol na Pedra Bela!...

6. Nascido da terra e para a terra; hermeticamente fechado nas suas convicções de homem que parte, mas não torce, lutou até ao fim até cair, resignado mas não vencido, perante o destino que não perdoa… 

“ Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o Caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir ao encontro do mar
Desaguar.
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.” ----------- ( Diário XVI )


Foi assim Miguel Torga, o poeta sempre vivo, porque o homem não morreu…


Domingos Alves, Julho de 2014.

PS. Várias vezes candidato ao prémio Nobel da Literatura nunca, infelizmente para as letras portuguesas, Miguel Torga foi contemplado com tal distinção, aliás tão justa quanto merecida:“… ou o Nobel para Torga, ou o escândalo!”, dizia Joaquim de Matos no “Letras e Letras” de 15 de Abril de 1969. Mas para a humilde grandeza de tão insigne poeta, contista ímpar, diarista único, sempre avesso a mediatismos e honrarias de toda espécie, talvez a não atribuição do famoso prémio tenha constituído um verdadeiro alívio por mais Nobel que ele fosse…





quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

MIGUEL TORGA



A Junta de Freguesia de S. Vicente, em parceria com a biblioteca da escola Sá de Miranda, promove no próximo dia 15 de janeiro, pelas 10 horas, no auditório daquele estabelecimento de ensino, uma conferência sobre a vida e obra do grande poeta Miguel Torga.
A iniciativa tem como conferencista o escritor transmontano Fernando Aldeia e a entrada é livre. O evento serve para assinalar a passagem do 20º aniversário da morte de Miguel Torga (17 de janeiro) e também como dinamização da biblioteca Dr. Domingos Alves, situada na sede da Junta de Freguesia de S. Vicente.
Miguel Torga nasceu em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, distrito de Vila Real.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Hora do Conto



A Junta de Freguesia de S. Vicente prosseguiu a sua actividade da “Hora do Conto”, desta feita, no Centro Cívico de S. Vicente com a presença de José Machado, excelente orador e contador de histórias infantis.
Foi uma sessão plenamente participada pelas cerca de 45 crianças do 1º e 2º anos da Escola do Bairro da Misericórdia, em S. Vicente. Forma duas histórias carregadas de simbolismo e mensagens que foram magnificamente absorvidas e participadas pela pequenada.
No seu estilo vivaço, José Machado lá foi desenvolvendo as histórias, apelando igualmente à capacidade de concentração e memorização daquelas crianças com perguntas de confirmação. As perguntas foram todas respondidas e as mensagens deixadas ao longo das histórias forma absorvidas por aqueles alunos.
A Junta de Freguesia de S. Vicente esteve representada, como habitualmente, por Domingos Alves, vogal para a Educação e Cultura.
A iniciativa da “Hora do Conto” surge no âmbito da dinamização da biblioteca Dr. Domingos Alves e na política de promoção cultural e apoio à literacia, nomeadamente infantil por parte do actual executivo da Junta de Freguesia de S. Vicente.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Apresentação do livro "A cidade dos animais" de Maria do Sameiro Barroso


No dia 04 de Outubro, pelas 16 horas, será apresentado, no Centro Cívico de S.Vicente (Instalações da Junta de Freguesia), o livro infanto/juvenil "A Cidade dos Animais", da autoria de Maria do Sameiro Barroso, pelo vogal para a Educação e Cultura, Domingos Alves. A animação estará a cargo de um grupo de música regional.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Hora do Conto é já uma referência em S. Vicente



Cerca de meia centena de alunos da escola EB1 da Quinta da Veiga, participaram em mais uma iniciativa de sucesso intitulada “Hora do Conto”, da responsabilidade da Junta de Freguesia de S. Vicente e dinamizada por António Castanheira com canções acompanhadas à viola.

A “Hora do Conto”, surge como complemento à dinamização da biblioteca Dr. Domingos Alves. Esta estrutura, localizada no Centro Cívico de S. Vicente, tem como principal finalidade dar apoio aos cidadãos da freguesia no âmbito dos livros e da leitura e está totalmente ligada em rede com a biblioteca Lúcio Craveiro da Silva.



Na parte final da “Hora do Conto”, os alunos tiveram a oportunidade de efectuar uma visita à referida biblioteca e apreciar o trabalho que lá se vai efectuando. Domingos Alves, vogal para a Educação e Cultura da junta vicentina, salientou o facto de a mesma ter sido concretizada a custo zero. Desde as estantes aos livros, tudo foi oferecido por instituições e cidadãos da freguesia. Domingos Alves salientou ainda aos alunos presentes a importância dos livros e da leitura. Uma cidadania activa requer muita leitura e conhecimento de outras realidades, daí ser muito importante ler para conhecer mais.

Igualmente presente esteve o chefe do executivo vicentino Jorge Pires. Este responsável autárquico enalteceu igualmente a importância da iniciativa “Hora do Conto”, e o contínuo empenho da Junta de Freguesia de S. Vicente na valorização educativa e cultural das crianças das escolas e jardins-de-infância de S. Vicente.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Visita à Biblioteca


No âmbito da dinamização da biblioteca Dr. Domingos Alves, a Junta de Freguesia de S. Vicente deu continuidade à actividade da Hora do Conto. Na última sessão antes da interrupção lectiva (férias da páscoa), os meninos do jardim-de-infância da Quinta da Veiga (restantes), participaram em mais uma sessão desta iniciativa da Junta de Freguesia. António Castanheira dinamizou alegremente mais uma sessão acompanhado pela sua guitarra o que deu mais alegria ao conto.

Os alunos daquele estabelecimento de ensino da freguesia tiveram ainda a oportunidade de visitar a biblioteca Dr. Domingos Alves onde ouviram algumas palavras de incentivo à importância dos livros e da leitura. Domingos Alves, vogal para a Educação e Cultura, salientou ainda que a biblioteca é para ser usada e os livros que ela contém só são úteis se forem requisitados e lidos pelos leitores.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Requisição de Livros



Na biblioteca Dr. Domingos Alves o leitor desde já será convidado a requisitar e a ler mais de duas mil obras devidamente catalogadas e colocadas em rede. Todo este projecto foi construído a custo zero, fruto das imensas parcerias que o executivo da Junta de Freguesia de S. Vicente vem estabelecendo ao longo dos últimos cinco anos e também com recurso ao voluntariado.

terça-feira, 18 de março de 2014

Apresentação pública do Portal da Rede de Bibliotecas de Braga


A Junta de Freguesia de S. Vicente esteve na sessão de apresentação pública do Portal da Rede de Bibliotecas de Braga. Fruto da agregação de bases de dados de mais de trinta escolas, este portal pretende ser uma plataforma de consulta do catálogo coletivo das bibliotecas de Braga. Além disso, configura também um importante trabalho em rede que permitirá partilhar informação de diversas bibliotecas, de âmbito escolar, mas também daquelas que se podem encontrar em entidaddes como, por exemplo, as juntas de freguesia. A biblioteca Dr. Domingos Alves, que a Junta de Freguesia de S. Vicente acolhe e dinamiza, será um dos parceiros desta rede, enquanto instrumento para continuar o trabalho, sempre inacabado, de aproximar leituras e leitores.