sexta-feira, 6 de junho de 2014

Hora do Conto é já uma referência em S. Vicente



Cerca de meia centena de alunos da escola EB1 da Quinta da Veiga, participaram em mais uma iniciativa de sucesso intitulada “Hora do Conto”, da responsabilidade da Junta de Freguesia de S. Vicente e dinamizada por António Castanheira com canções acompanhadas à viola.

A “Hora do Conto”, surge como complemento à dinamização da biblioteca Dr. Domingos Alves. Esta estrutura, localizada no Centro Cívico de S. Vicente, tem como principal finalidade dar apoio aos cidadãos da freguesia no âmbito dos livros e da leitura e está totalmente ligada em rede com a biblioteca Lúcio Craveiro da Silva.



Na parte final da “Hora do Conto”, os alunos tiveram a oportunidade de efectuar uma visita à referida biblioteca e apreciar o trabalho que lá se vai efectuando. Domingos Alves, vogal para a Educação e Cultura da junta vicentina, salientou o facto de a mesma ter sido concretizada a custo zero. Desde as estantes aos livros, tudo foi oferecido por instituições e cidadãos da freguesia. Domingos Alves salientou ainda aos alunos presentes a importância dos livros e da leitura. Uma cidadania activa requer muita leitura e conhecimento de outras realidades, daí ser muito importante ler para conhecer mais.

Igualmente presente esteve o chefe do executivo vicentino Jorge Pires. Este responsável autárquico enalteceu igualmente a importância da iniciativa “Hora do Conto”, e o contínuo empenho da Junta de Freguesia de S. Vicente na valorização educativa e cultural das crianças das escolas e jardins-de-infância de S. Vicente.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Visita à Biblioteca


No âmbito da dinamização da biblioteca Dr. Domingos Alves, a Junta de Freguesia de S. Vicente deu continuidade à actividade da Hora do Conto. Na última sessão antes da interrupção lectiva (férias da páscoa), os meninos do jardim-de-infância da Quinta da Veiga (restantes), participaram em mais uma sessão desta iniciativa da Junta de Freguesia. António Castanheira dinamizou alegremente mais uma sessão acompanhado pela sua guitarra o que deu mais alegria ao conto.

Os alunos daquele estabelecimento de ensino da freguesia tiveram ainda a oportunidade de visitar a biblioteca Dr. Domingos Alves onde ouviram algumas palavras de incentivo à importância dos livros e da leitura. Domingos Alves, vogal para a Educação e Cultura, salientou ainda que a biblioteca é para ser usada e os livros que ela contém só são úteis se forem requisitados e lidos pelos leitores.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Requisição de Livros



Na biblioteca Dr. Domingos Alves o leitor desde já será convidado a requisitar e a ler mais de duas mil obras devidamente catalogadas e colocadas em rede. Todo este projecto foi construído a custo zero, fruto das imensas parcerias que o executivo da Junta de Freguesia de S. Vicente vem estabelecendo ao longo dos últimos cinco anos e também com recurso ao voluntariado.

terça-feira, 18 de março de 2014

Apresentação pública do Portal da Rede de Bibliotecas de Braga


A Junta de Freguesia de S. Vicente esteve na sessão de apresentação pública do Portal da Rede de Bibliotecas de Braga. Fruto da agregação de bases de dados de mais de trinta escolas, este portal pretende ser uma plataforma de consulta do catálogo coletivo das bibliotecas de Braga. Além disso, configura também um importante trabalho em rede que permitirá partilhar informação de diversas bibliotecas, de âmbito escolar, mas também daquelas que se podem encontrar em entidaddes como, por exemplo, as juntas de freguesia. A biblioteca Dr. Domingos Alves, que a Junta de Freguesia de S. Vicente acolhe e dinamiza, será um dos parceiros desta rede, enquanto instrumento para continuar o trabalho, sempre inacabado, de aproximar leituras e leitores.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Hora do Conto no Centro Cívico de S. Vicente





A primeira edição da iniciativa da Hora do Conto, no Centro Cívico de S. Vicente, foi um verdadeiro sucesso. As crianças da freguesia possuem agora mais uma valência cultural de grande nível e valia. Todas as crianças das escolas da freguesia vão ter oportunidade de assistir a mais uma aposta de sucesso do actual executivo de S. Vicente. A segunda edição da hora do conto acontece brevemente... esteja atento...





Crianças de S. Vicente deliram com a hora do conto





Foi com muita música e leitura de um conto que a Junta de Freguesia de S. Vicente promoveu a sua primeira edição da hora do conto, no Centro Cívico. A estreia foi um sucesso. Os primeiros utentes desta nova valência cultural da freguesia vicentina foram os alunos do jardim-de-infância da Quinta das Fontes. Todas as crianças das escolas da freguesia vão ter acesso à hora do conto. Esta primeira sessão inaugural foi animada por António Castanheira. Cativou a criançada com os seus contos acompanhados à viola.

O animador abriu com músicas dedicadas a eles e a elas. Captou magistralmente a atenção do seu público e encheu a sessão de música e alegria. As crianças deliraram com a iniciativa e acompanhavam as músicas com palmas e cânticos.



António Castanheira escolheu o conto da lebre e da tartaruga e lá foi encenando acompanhando com música até que chegou ao final para dar a perceber as duas grandes lições a retirar do conto. No caso “devagar se vai ao longe” e “aprender a não desperdiçar o precioso tempo de que dispomos”. A parte lúdica foi do agrado do seu exigente público mas a faceta educativa também foi bem aceite pela pequenada.

De resto, as crianças que encheram por completo a sala de formação do Centro Cívico tiveram ainda a oportunidade de ver as montras daquele edifício. A do Sporting Clube de Braga foi a que captou mais a atenção dos alunos.

Deliraram com os produtos expostos do clube mais representativo da cidade, o S.C.Braga. As restantes montras eram das associações da freguesia e dos caminhos de santiago. Dali, dirigiram-se à biblioteca Dr. Domingos Alves, onde lhes foi explicada a importância da mesma e da leitura. Domingos Alves, vogal da Junta de S. Vicente ministrou uma mini-palestra salientando a importância das bibliotecas e da leitura em geral. Referiu igualmente que os livros estão à disposição de todos aqueles que os queiram requisitar, pois só desta forma se entende a existência de qualquer biblioteca. Os livros são para serem requisitados e lidos.



Domingos Alves, vogal para a Educação e Cultura e substituto do presidente, agradeceu a todos (alunos, professores e auxiliares) a participação nesta primeira hora do conto organizada pela Junta de Freguesia.

Referiu igualmente que o actual executivo liderado por Jorge Pires tem um carinho especial pelas crianças da freguesia e que tudo fará para que iniciativas destas e outras venham a ser uma realidade.


Jorge Paraíso (assessor imprensa)




informação retirada de Junta de Freguesia de S. Vicente


domingo, 19 de janeiro de 2014

Texto lido por Dr. Domingos Alves na sessão de apresentação do livro "A Noite tem Garras de Seda" de Maria do Sameiro Barroso



Obra de carácter autobiográfico/literária em prosa poética, “A NOITE TEM GARRAS DE SEDA” segue, em linhas gerais, o percurso imaginário de outros livros que Maria do Sameiro Barroso vem periodicamente dando à estampa.

Em “Seiva das Papoilas”, 1.º título dos catorze em análise, a autora refere-se a “O Enzima” como o seu primeiro trabalho literário. Aí fala de “homens devassos, apodrecendo. Não me apercebera ainda de que começava a escrever, talvez porque os homens, eternos e fi nitos, há muito haviam surgido diante de mim e me obrigavam a parar, a interrogar, a entender”. E assim, “começava a consumar a existência no álcool célere dos poemas…”, confessa. Entretanto, e já numa 2.ª etapa da sua criação literária, dá-nos conta do encontro com alguns poetas na época famosos: Tomás Ribas, Luís Veiga Leitão, Adalberto Alves, António Rebordão Navarro e outros, que lhe foram apresentados pelo grande amigo e editor José Manuel Capelo, aí consolidando o muito gosto que então já sentia pela “nobre arte”. “Recém-chegada às lides literárias, pertencia ao grupo dos mais novos… com quem partilhava o fascínio pelo reino encantado das palavras”, ainda que se considerasse uma noviça ou iniciada, mas já uma criança de olhos muito abertos… Pelos vistos, não era já assim tão noviça ou iniciada; ora leiam estes lindos versos dedicados ao seu grande amigo “Zé Capelo”: “Somos todos um eco/Zé Capelo,/a tua voz amiga,/o eixo das horas/o tempo./A voz é medida./Somos todos um eco,/o tempo é um nevoeiro,/ os poetas, como flamingos/num bosque,/no contexto, o interior,/o tempo é um filtro autêntico,/a alma é um filtro lento./Vivos não são os que vivem,/vivos são os que são./A alma é a medida.” (Pág. 12).

“Gostava que a minha vida fosse um poema puro, escrito sobre as águas, um conto perfeito, uma estrela de sal e não este crepúsculo carregado de naufrágios, suspensos da vertigem negra, contida na secreta conjugação das vozes”. Assim começa o título “As Algas Insondáveis” dedicado ao seu irmão Severino Barroso. Jovem de espírito aventureiro/radical, “a intensidade do seu olhar, as pombas ou as borboletas que dançavam nos seus olhos tinham-no levado ao convívio das núvens…”

Severino Barroso falecera aos vinte e cinco anos num acidente de aviação, no Aero-Clube de Braga. Mergulhada na dor e na solidão, é na escrita que a autora encontra algum lenitivo para esta vida cheia de mistérios e pungentes contradições: “Por isso escrevo… escrevendo linhas, plano a plano… revolvendo essa arca cinzenta que me traz a escrita…”, embora sinta “a plena consciência de que a minha vida não é um poema flutuan do nas águas…”

Porque “nos vitrais obscuros, o poema é inseparável do corpo, súbita cicatriz, marca obstinada, vocábulo do ser, grinalda errante, único porto a habitar a solidão interdita. Sei-o agora, revendo a história de uma solidão partilhada.” (pág. 27); só muito mais tarde “voltei a Caminha e ao meu rio predileto: o Minho”, confessa.

Mas a vida continua e a poesia, ainda que dorida, também, agora em Braga, revisitando “os recantos preciosos da minha infância perdida”, na companhia da mãe e tia e, ocasionalmente, do pai que, por motivos profissionais, se ausentava por longos períodos em terras de África. “Era, então, que nos deliciávamos com as suas histórias de macacos, cobras, leões, crocodilos, hipopótamos, girafas…” Era ainda no regaço da família que “eu e o meu pai colhíamos rosas, laranjas, morangos, enquanto minha mãe colhia legumes e o jardineiro tratava das árvores… Os dias corriam lestos, nas tardes de sol, sob o céu acetinado”; “aurea mediocritas” em pleno ambiente citadino, diríamos nós… “Ao domingo íamos à missa ao Sameiro, de cuja Nossa Senhora o meu pai… era bastante devoto – fora ele que me dera o nome, pois tendo eu nascido débil, o meu pai pedira à Senhora do Céu que fosse minha madrinha e me concedesse a sua proteção. No verão, eram as praias do Alto Minho, como Afife e Carreço, onde íamos apanhar sol e ouvir o mar…”

E o registo de “A NOITE TEM GARRAS DE SEDA” prossegue com a bela referência à Semana Santa, nomeadamente ao Domingo de Ramos e à Quinta-feira Santa: “Os ramos de palmeira anunciam a Paz. No Domingo de Ramos, as crianças vestem-se de anjos, evocam pecados desfeitos, cabelos soltos, Madalenas milenares…”. “Na Quinta-Feira Santa as vozes incendeiam-se nas noites de tochas e pecado; em vestes de roxo e cinza, a cidade regurgita.”

E é neste caminhar pelo espaço e pelo tempo que a autora não esquece, ainda, a Freguesia de S. Vicente, recordando Remisnuera, “mulher sueva, matriz acesa, vestígio da destruição sarracena, no ano 610”. A propósito, e para os mais curiosos, assim refere o texto da lápide sueva/visigótica que se encontra na igreja de S. Vicente: “Aqui descansa Remisnuera, desde o primeiro dia de Maio de 618, dia de Segunda-feira, em paz, amen”. (Jornal Fronteira, 18/12/2010). Datada de 618 esta lápide é, certamente, o mais antigo monumento do Cristianismo em Braga e, possivelmente, até de toda a Península. Nele se faz referência aos dias da semana, segundo a numenclatura cristã: “dia de Segunda-Feira…” sendo, igualmente, um testemunho da pregação do bispo São Martinho.

Em “Braga, Berço e Neblina” (pág. 43), tudo é encanto e fascínio: “Enamorada dos pórticos… ruas estreitas… antigos palácios da bela cidade, reconstruo a casa, o poema, a estrela coroada pela laboriosa fonte que jorra na doçura das gentes do Norte”… Nela “todo o conforto passa pelo húmus deste apego quente, vitorioso e forte…”. Lembra a Biblioteca Pública e o Arquivo Distrital, com os “manuscritos que espalham a sua cor…”; delicia-se com o café d’A Brasileira, com os passeios pela Arcada e Avenida Central; encanta-se com o estilo arquitetónico das muitas igrejas em cujas fachadas escuta “a pedra e os murmúrios das gentes antigas…”.

Também a Fonte do Ídolo não foi esquecida, neste belo roteiro de alma de Maria do Sameiro Barroso: “Na Fonte do Ídolo, uma oferenda, uma inscrição, um culto antigo – uma deusa de nome Nabia abençoa o lugar onde o silêncio flui e os lábios se reúnem”. A propósito, aqui se transcreve o que Teresa Lima publicou no jornal Público, de 29 de Julho de 2001, acerca desta bela relíquia bracarense: “Sabe-se que, provavelmente, a fonte foi mandada construir por Celico Fronto, um emigrante que se estabeleceu em Braga e terá enriquecido. Como era habitual na época, resolveu erigir um santuário e dedicá-lo a uma fusão de dois deuses: Nabia (deusa ligada às águas) e Tongo, a divindade da terra de origem de Celico”. Para quem desejar mais alguma informação poderá ainda consultar, por exemplo, no Diário do Minho, de 30 de Dezembro, de 2002, um excelente artigo de Francisco Sande Lemos. Na Sé, Monumento Nacional desde 1910, construído sob antigo mercado ou templo romano dedicado à deusa Ísis e posteriormente os muros de uma basílica paleocristã, conforme consta de uma pedra votiva na parede leste, à autora não escapa o reconhecimento histórico/artístico da vetusta Catedral Bracarense, através de minuciosas referências, sejam elas arquitetónicas ou religioso/ litúrgicas; todas feitas, aliás, na primeira pessoa, o que, certamente, não acontece por mero acaso: “A História transcreve-me, funde-me, reescreve-me…” (pág. 53).

Viajando pelo estrangeiro, e em “Roteiro Aberto” (pág. 59), a autora leva-nos até Espanha, mais concretamente até Sevilha/Córdova, onde a Arqueologia (pág. 61), outra das suas paixões (“o tempo dilata-se neste roteiro arqueológico”) e o Teatro por certo não deixaram de constituir opções bem sucedidas: “E o tempo prolonga-se num palco negro, onde o teatro total desafia a música, os sons, as origens, em danças rituais, dessacralizadas…”; e mais adiante: “No ar pairam lugares que Federico Garcia Lorca cantou…” (pág. 61). O grande Garcia Lorca, nascido em 1898 e tragicamente fuzilado pelos franquistas, aquando da guerra civil espanhola, e que tão belamente cantou a paisagem e os costumes da terra natal!

Em o “Tinteiro de Schiller” (pág. 65) a autora recorda: ”Fora um presente de aniversário, um tinteiro de prata e cristal, parecia um tinteiro que vira quando consultara uma das biografias de Schiller, a propósito de alguns poemas seus que traduzi. Era transparente e luminoso. Guardei-o, pois, cuidadosamente, não fosse estragar-se, partir-se, ou, ideia louca, encher-se de tinta e começar a discorrer – dentro da minha cabeça, claro – a confiar-me os seus segredos, a revelar-me o que pressenti ou aquilo que nem cheguei a perceber, nas entrelinhas dos seus poemas.” Este tinteiro foi, seguramente, um dos objetos mais carinhosamente poéticos de Maria do Sameiro Barroso: “Refrescante e inspirador”, o tinteiro de Schiller, mais do que (para alguns) um suposto amuleto, na verdade configurava para a autora um verdadeiro ícone dessa “doença incurável, mas absolutamente benigna que é a poesia e a arte”, na feliz expressão de Maria do Sameiro Barroso. Certamente fascinada pelo diário do grande poeta, dramaturgo e filósofo alemão, nascido em 1759 e falecido em 1805, ainda hoje muito justamente considerado o expoente máximo da história do teatro alemão, certamente fascinada, dizíamos, por “aquele diário que os poetas nem chegam a escrever”, é nele que a autora encontra o “espaço e o lugar para toda a fantasia…”

Doravante o seu diário “passou a ser mensal”, o que lhe permitiu mais tempo para “olhar longamente e sem pressa a próxima lua, o pôr do sol, ou pressentir as árvores do meu corpo sussurrando com o vento, pensando nos áugures antigos, no próximo quarto crescente, olhando o tinteiro de Schiller, imaginando a sua vida, as suas peças dramáticas, a sua filosofia a sua poesia o seu diário!” Por isso, assim desabafa: “No meu diário já não escrevo mais nada, a não ser o que se passa nos dias estranhos e únicos”.

E “A NOITE TEM GARRAS DE SEDA” finaliza com “Melodia Intacta”, numa bela e sentida homenagem ao seu “pai literário”, António Ramos Rosa, esse grande poeta recentemente falecido, e perante cuja memória certamente hoje nos curvamos: “Bebi da sua luz, como ave estonteada. Na sua ébria fonte, bebi os vestígios plenos, a palavra vazia. Com ele, regressei à coerência antiga, apoiada na janela nítida de um pórtico solar. Fui sacerdotisa do seu culto”... E mais adiante: “Na solidão dos enigmas, com ele aprendi que as estrelas moram o interior dos relógios, que a liberdade habita a transgressão…”; e ainda: “Na sua palavra, vi nascer os gérmenes da cal e do silêncio, os nomes despenhando-se num frémito de argila…”

Permitam-me, neste momento, e igualmente em preito de singela homenagem, a transcrição de meia dúzia de deliciosos versos da “Viagem através de Uma Nebulosa” , de António Ramos Rosa: “Não posso adiar o Amor”.

Não posso adiar o amor para outro/ século não posso ainda que o grito/ sufoque na garganta ainda que o ódio/estale e crepite e arda sob montanhas/cinzentas e montanhas cinzentas. // Não posso adiar este abraço que é/uma arma de dois gumes amor e ódio. // Não posso adiar ainda que a noite/pese séculos sobre as costas e a aurora/indecisa demore não posso adiar para/outro século a minha vida nem o meu/amor nem o meu grito de libertação. // Não posso adiar o coração.

Dele escreveu, ainda recentemente, Nuno Júdice: “A vocação da poesia de Ramos Rosa é recuperar a ligação perdida entre as palavras e as coisas, fazer brilhar o sol que não brilha na palavra sol” (Nuno Júdice in Diário de Notícias, de 28/09/2013).

Maria do Sameiro Barroso escreve em “A NOITE TEM GARRAS DE SEDA”: “O sol nunca sobra no dorso imortal dos torsos de água. Como intacta folha, regressa ao vocábulo esquecido, à recôndita voz, à face inteira. O sol nunca se esquece de acordar a noite…”.

“A NOITE TEM GARRAS DE SEDE” é, sem dúvida, uma obra para se ler, para refletir e para saborear!..


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Apresentação do livro "A noite tem garras de seda" de Maria do Sameiro Barroso


No dia 19 de dezembro de 2013, pelas 21h, o Dr. Domingos Alves apresentará o livro "A noite tem garras de seda" de Maria do Sameiro Barroso, no Centro Cívico de S. Vicente, Braga.





segunda-feira, 23 de setembro de 2013

LOCAL.PT, 23 de setembro de 2013
























LINK para fotografias e notícia, no LOCAL.PT, da apresentação de "Luas de Gengibre" de Maria do Sameiro Barroso, em S. Vicente, Braga


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Texto lido por Dr. Domingos Alves na sessão de apresentação do livro "Luas de Gengibre" de Maria do Sameiro Barroso



Nem sempre se torna fácil, como a própria autora reconhece, a análise da obra poética de Maria do Sameiro Barroso, nomeadamente a sua mais recente, “Luas de Gengibre”, sobretudo para quem, de modo simples e singelo, mais não pretende do que descodificar aquilo que muitos consideram ser uma tarefa quase impossível: penetrar no âmago da verdadeira mensagem poética. Com efeito, o sujeito poético é um artista e, como tal, só ele – e verdadeiramente só ele – consegue desmascarar, digamos assim, o produto do seu ato criador e, às vezes, diria que nem mesmo ele… Ao crítico/analista, por conseguinte, apenas sobra o apelo consciente e honesto do recurso à sensibilidade poética de que for capaz e que em todos e cada um de nós por certo existe. 

Mais do que o enquadramento literário numa qualquer escola ou movimento modernista, a poesia de Maria do Sameiro Barroso, em “Luas de Gengibre”, como em outras obras suas, pode considerar-se como” uma poesia de rutura”, nas sábias palavras de Teresa Rita Lopes. Poesia de inspiração oriental, onde é bem manifesto o simbolismo de palavras que chamam outras, numa relação pouco comum, mas ainda assim irmanadas num singular contexto melódico.

Marcada pelo surrealismo e expressionismo alemães (movimentos que mais a influenciaram), a poesia de Maria do Sameiro Barroso não deixa, mesmo assim, de seguir um itinerário bem pessoal e, por isso mesmo, jamais subjugante. De poesia luminosa voltada para a natureza, e por vezes percorrendo também a noite e as trevas, mas sempre com o regresso marcado ao iluminismo, ao sol que aquece, ilumina e dá vida, a autora é, de facto, uma pessoa muito solar! “A luz absorve-me / De tudo o que é vivo me impregno”… “A aurora filtra-me por entre os seus xailes de seda”… (pág. 9). E ainda que diga que “com trevos da noite me cobri” / das poções da morte, bebi”… (pág. 22) é, todavia, nas montanhas que se ouvem tordos / cantores, / as torres mais altas libertando / os itinerários de luz.” (pág. 23.)

Torna-se, pois, evidente uma espécie de solidariedade antagónica quando o sujeito poético não hesita em afirmar: “Convivo com a noite, com os segredos / Convivo com a luz, e com os seus antídotos / por entre cisnes, cavalos, corvos celestes…” (pág. 33).

Também o elemento aquático assume primordial importância em “Luas de Gengibre”, como se pode ver logo no 1.º verso do primeiro poema: “O mundo começou na aurora aquática”… Elemento fundamental da vida, a par da terra, do fogo e do ar, é na água e nos sonhos, como muito bem salienta Alfredo Pérez de Alencart, poeta de Salamanca, que o sujeito poético encontra a melhor ancoragem para proteger o seu perfil de todas as ignições banais: “Ecoam as palavras pela água, os astrolábios / os relógios de sol / as clepsidras gotejando, na senda das palavras / e dos trevos”… (pág. 8). E também: “Os rios nunca deixam de correr porque precisam / de inundar o corpo, o sangue” (pág. 24); ou, finalmente ainda, nesta bela referência clássica, igualmente uma das grandes fontes de inspiração poética de Maria do Sameiro Barroso: “As ninfas, que poalha as tece? / que olhar as define? / Na orla dos mares e dos rios, assomam / nereidas, náiades, corpos transparentes…” (pág. 30).

A propósito, não resisto – até pelo gosto que a autora nutre pela cultura, nomeadamente a clássica – de citar um pequeno texto da sua autoria, aliás bem recente, inserto no suplemento Cultura do “Diário do Minho” (de 04-09-13), a propósito de uma taça de prata romana descoberta em 1979 nas Termas Romanas do Alto da Cividade, verdadeiro “ex-libris” do Museu D. Diogo de Sousa, segundo a opinião abalizada do arqueólogo Rui Morais: “Os objetos arqueológicos sempre foram para mim objetos poéticos, em seu estado natural que ampliam e dilatam a nossa identidade antiga, descodificam o seu quotidiano, transformam-nos em seus espetadores, sugam-nos para dentro da sua vivência íntima e telúrica. Testemunhando o culto e os rituais da morte, aspiram-nos para as suas fendas, cobertas pelas suas múltiplas feridas que aclaram a vida e o silêncio, deixando-nos antever o mistério das essências mais puras. A arqueologia é uma espécie de autópsia gigantesca que brilha na grande noite dos seus órgãos esquecidos.”

Voltando agora às “Luas de Gengibre”, nestas “trinta perlas capturadas en las aguas de sus sueños más reales o de experiencias que resucitan, a fuego lento, desde la gran temperatura de su corazon” (pág. 5) – acabei de citar as primeiras linhas do prefácio de Alfredo Alencart –, não podia deixar de referir a profunda e sincera evocação de uma vivência amorosa muito intensa que percorre vários títulos de “Luas de Gengibre” e onde, curiosamente, marca presença frequente o elemento aquático, numa relação eu/tu, a que não podemos ficar indiferentes: O amor é lodo entumescido (pág. 10); nas águas, as palavras de um amor desprendem-se / no estranho sabor das lágrimas (pág. 10)…; O teu corpo era o paradigma das águas luminosas (pág. 11); no entanto, Do outro lado das montanhas, as palavras / disfarçavam já armadilhas rigorosas…” (pág. 13), mesmo vivendo o primeiro amor (pág. 15) de um tempo que era precioso e único / no teu rosto imenso e breve… (pág.15); Olho, como tu, as manhãs, os rios / as mãos que escrevem. / Aguardam-te os famintos animais, / um beijo contido nas horas. / Na carqueja do silêncio, recordas ainda / um pedaço de pão comido no céu. / Nele guardas um gesto puro, / um som inquieto, um murmúrio de mar. / Outrora, antes da cinza nos corroer, / traduzíamos as águas, as quimeras, / sabíamos das montanhas, das águias, / da terra e da sua sábia singeleza / das montanhas…” (pág. 17). Evocação de um amor que, infelizmente, até parece não ter dado certo, mas que se recorda talvez, apenas, com uma saudade algo envergonhada, mas nem por isso menos inevitável.

E a evocação amorosa como que desagua as suas mágoas no poema “Penas de Pavão” (pág. 34): Durmo na recordação da tua boca/ sobre a minha./Como açúcar rosado, a tua língua,/ o teu abraço,/ as tâmaras dulcíssimas. / Durmo abraçada a ti, na recordação / guardada numa noite de chuva. / Durmo sobre o que resta das noites/ eternas. / Sobre ti dormem os moinhos do tempo / os cristais verdes, a boca rubra, / a sede infinita. / Durmo na cinza acesa do passado. / Esqueço-te e esqueço-me. / Entre rizomas lenhosos na forma / das letras que envolvem o céu / as raízes dispersas reúnem-se / nos campos infinitos, / e os olhos descansam / em penas de pavão.

Nada mais resta, pois, senão a nostálgica recordação das coisas boas, e o esquecimento possível de um passado algo frustrante e doloroso.

Uma outra característica da poesia de Maria do Sameiro Barroso é, sem dúvida, a importância, diria mesmo: o severo respeito, que à autora merece o termo Palavra. De novo passo a citar o que diz Alfredo Alencart: “Lo suyo es PALABRA que funda su domínio amputando burdas retoricas, inocências fingidas a que nos tienen acostumbrados, fogonasos estériles puestos en verso…” (pág. 5). Vejamos, então, alguns exemplos: A luz absorve-me. / De tudo o que é vivo me impregno. / A aurora filtra-me por entre os seus xailes / de seda. / Bebo o elixir das palavras, / quando o silêncio resvala / e os crisântemos afagam a estrela / que se desnuda no centro prateado / da noite das esfinges. (pág. 9); Do outro lado da sombra, as palavras / disfarçavam já as armadilhas rigorosas… (pág. 13); Os rios nunca deixam de correr porque precisam / de inundar o corpo, o sangue, os violinos de mármore, / as estrelas que não pulsam. / As palavras são seres esdrúxulos onde os rios bebem. / Por elas, me apago, me acendo. (pág. 24); São ágeis as palavras, talhadas nas pedreiras negras, / lembram loureiros frios, brancas avenidas, / rebanhos que ordenho entre emboscadas de luz. / É lá que roubo o corpo aos anjos, confisco-lhes / a aura, o sangue, depois embriago-me / no segredo exangue do seu mais puro veneno. / São ágeis as palavras, como brancos loureiros, / talhados na urze. / É nelas que descubro o teu segredo, / perscruto a sombra, degluto as poções / negras. / Depois, lavo o meu cérebro na luz das tuas mãos, / dispo-me do tempo, percorro o céu, / o mar, de novo envergo o sol / e envolvo-me na roupagem quente / de amoras, arco-íris, / digo os frutos que têm o teu sabor, / o meu sabor, / e digo os teus lábios, cálices rubros, / prelúdios de orvalho, veludo da manhã. (pág. 28). É, pois, nesta sequência de referências, que simultaneamente nos manifestam sentimentos, desabafos e paixões, que surge, em “Luas de Gengibre”, a decisiva importância da Palavra, como verdadeiro aglutinador de todos eles. Daqui resulta, naturalmente, uma linguagem decantada, retilínea e firme, com frequentes antíteses/oxímoros, para além de assíndetos e polissíndetos, e que a tornam ainda mais cumulativamente assertiva, bem ao contrário de muitas outras que não resistem à fácil tentação das “igniciones banales”, para de novo citarmos Alfredo Alencart.

Não obstante a mundividência temática dos versos de Maria do Sameiro Barroso, resultante não só da sua inspiração poética, como também da sua profissão de médica — que neste caso mais parece funcionar como “pausa/alívio” das suas preocupações interiores – a força da palavra constituirá sempre, e por certo, uma das imagens de marca da sua poesia: Numa praia deserta, o crânio rebocado / pelos abutres arrasta pensamentos, pálpebras / pesadas. / Os ouriços do mar preenchem as suas órbitas / descarnadas. / Só os cadáveres inteiros são presa dos astros. / Aqui, os pedaços de cérebros despedaçaram-se, / há muito nas falésias do sono. / Há muito, os pedaços de céu soçobraram, / despenhados nas ondas. / Tudo se resgata, no entanto, nas fileiras / da noite… (pág. 21).

Os termos são, por vezes, de um realismo bem duro e, de algum modo, até reveladores de uma certa fragmentação quase psicótica de estranhas sensações em que, por vezes, o sujeito poético se deixa conscientemente enlear… Tal como para Urbano Tavares Rodrigues, recentemente falecido, também para Maria do Sameiro Barroso ter “amor à palavra, é ter amor à vida”.

Para finalizar esta pequena reflexão, e tendo ainda em conta o caráter de certo modo autobiográfico de “Luas de Gengibre”, permitam-me que vos cite o que, a propósito, recentemente dizia a professora Lisete Henriques, numa bela recensão de “Luas de Gengibre”: “«As Luas de Gengibre» levam-me a refletir sobre a Beleza e a profundidade desta Poesia substantiva em que a inteligência dos sentidos espelha e transmite emoções e nos envolve, porque abrange a Plenitude da Vida”. E como igualmente bem lhe assenta o que há milénios já dizia o grande poeta latino Horácio na sua famosa “Arte Poética”: “Non satis est, pulchra esse poemata; dulcia sunto et, quocumque uolent, animum auditoris agunto” (não basta que os poemas sejam belos: força é que sejam emocionantes e que transportem, para onde quiserem, o espírito do ouvinte). Já lá vão também quase dois mil anos, e assim proclamava o famoso poeta, filósofo e dramaturgo Públio Terêncio: “Homo sum: nihil humani a me alienum puto…”, que podemos traduzir mais ou menos da seguinte maneira: “sou homem, e nada do que é humano me é estranho” – ou ainda talvez melhor: ”sou homem, e nada do que é humano me é indiferente. Que bela máxima intemporal, certamente tão do agrado de Maria do Sameiro Barroso e da mensagem poética que nos apresenta nas suas “Luas de Gengibre”!



Notas bibliográficas:

– “Arte Poética” – HORÁCIO; Clássicos Império; Edição bilingue; Introdução, Tradução e Comentário de R.M. Rosado Fernandes, da Faculdade de Letras de Lisboa; 3.ª edição; Editorial Inquérito, Limitada; Lisboa, 1984.

– “As Vindimas da Noite” — BARROSO, Maria do Sameiro; Ed. Labirinto; Amarante; Maio de 2008.

– “Luas de Gengibre”- BARROSO, Maria do Sameiro; Ed. Labirinto; Amarante; 2013



Braga, 19 de Setembro, de 2013.

Domingos Alves